Ciência
Testosterona: mitos e verdades sobre o polêmico hormônio
- Créditos/Foto:DepositPhotos
- 23/Setembro/2025
- Da Redação, com assessoria
De solução milagrosa para a libido feminina a salvação da energia masculina, a testosterona virou sinônimo de “atalho” para problemas de saúde e bem-estar. Mas a ciência mostra que a realidade é diferente.
Uma pesquisa da Secretaria de Saúde de São Paulo indicou que 48,5% das mulheres relatam algum tipo de disfunção sexual, sendo o desejo hipoativo a queixa mais comum. Nos homens, a obesidade é um fator decisivo: pacientes obesos apresentam até cinco vezes mais chance de apresentar deficiência de testosterona em comparação com homens não obesos. Os dados são de um estudo da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia.
“É comum ouvir no consultório perguntas como ‘minha libido sumiu, será que preciso usar testosterona?’. A questão é que a sexualidade humana é complexa demais para caber em uma prescrição simplificada”, afirma Ramon Marcelino, endocrinologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP).
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Confira os principais mitos e verdades sobre a reposição hormonal em homens e mulheres:
1. Testosterona é o hormônio central do desejo feminino – Mito
Durante a vida reprodutiva, quem rege os ciclos hormonais da mulher são o estrógeno e a progesterona. A testosterona existe em menor quantidade e cai pouco após os 35 anos. “Curiosamente, muitas mulheres que relatam queda no desejo nessa fase têm vários problemas associados e causadores, sem nenhuma correlação com as dosagens desse hormônio”, destaca Marcelino.
2. Se a libido feminina está baixa, a primeira solução é repor testosterona – Mito
Desejo sexual é multifatorial: envolve sono, rotina, saúde mental, autoestima, relacionamento e contexto de vida. O tratamento deve ser iniciado apenas após o afastamento das causas mais comuns do transtorno. “Uma mulher estressada, sobrecarregada ou em um relacionamento tóxico dificilmente sentirá desejo – e não há testosterona que resolva isso”, ressalta o endocrinologista.
Além disso, nem sempre ausência de desejo é um problema. Pesquisas publicadas no Journal of Sex Research mostram que cerca de 1% das mulheres se identificam como assexuadas e não sofrem com isso. Para esse grupo, impor tratamentos hormonais é considerado uma forma de violência médica.
3. Libido feminina pode ser espontânea ou reativa – Verdade
Há mulheres que não sentem vontade “do nada”, mas respondem ao toque e à intimidade. Isso não é doença. “É fundamental desmistificar a ideia de que só quem sente desejo espontâneo tem uma sexualidade saudável. A resposta reativa também é normal”, afirma Marcelino.
4. Obesidade reduz a testosterona nos homens – Verdade
O excesso de peso pode levar ao chamado MOSH (sigla em inglês para “hipogonadismo secundário associado à obesidade”). Nessa condição, a gordura corporal aumenta a conversão da testosterona em hormônios femininos, prejudicando a produção natural do hormônio. “Isso impacta a vida sexual, a fertilidade, a massa muscular, a disposição e até a expectativa de vida”, explica o médico.
5. Repor testosterona é sempre a melhor solução para os homens – Mito
Nos Estados Unidos, entre 2001 e 2011, o uso de terapia de reposição de testosterona aumentou mais de 300% entre homens com 40 anos ou mais, segundo um estudo publicado no JAMA Internal Medicine. O consumo excessivo, no entanto, pode causar infertilidade, arritmias cardíacas e até maior risco de fraturas.
“Repor testosterona sem tratar a causa não resolve o problema. O hormônio funciona muito mais como marcador da saúde do que como remédio universal”, reforça Marcelino.
6. O uso de testosterona é seguro quando bem indicado – Verdade
Quando há diagnóstico clínico e acompanhamento adequado, a reposição pode ser feita de forma responsável. Mas o uso sem critério é arriscado. “A prescrição ética exige escuta ativa, empatia e investigação cuidadosa. Só depois de descartar outras causas é que a reposição pode ser cogitada – e sempre com cautela”, finaliza o especialista.
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