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Rodrigo Serradura defende volta dos monólitos na era da inteligência artificial durante a Tropical on Rails 2026
- Créditos/Foto:Divulgação
- 20/Maio/2026
- Rodrigo dos Santos
Publicado em 20 de maio de 2026
Engenheiro brasileiro da Wavelo apresentou tese que desafia o consenso da indústria de software e afirma que arquiteturas modulares em Ruby on Rails são mais eficientes para agentes de IA
O avanço acelerado da inteligência artificial vem transformando profundamente a maneira como empresas desenvolvem software em todo o mundo. Em meio à corrida global por produtividade, automação e agentes inteligentes capazes de programar, uma discussão que parecia encerrada voltou ao centro do debate tecnológico: afinal, os monólitos ainda fazem sentido na engenharia moderna?
Para o engenheiro brasileiro Rodrigo Serradura, a resposta é sim — e mais do que isso: eles podem ser justamente o modelo ideal para a nova era da IA.
A tese foi apresentada durante a Tropical on Rails 2026, maior conferência de Ruby on Rails da América Latina, realizada em São Paulo. Rodrigo Serradura, Principal Software Engineer na Wavelo, subiu ao palco diante de cerca de 700 pessoas para apresentar a palestra “The Monolith Strikes Back”, uma provocação técnica que questiona diretamente o domínio dos microsserviços, arquitetura que marcou a indústria de software nos últimos dez anos.
Segundo Serradura, a fragmentação excessiva de sistemas em dezenas ou centenas de microsserviços acabou criando um novo problema: a perda de contexto. E, para agentes de inteligência artificial, contexto é tudo.
Para o engenheiro, monólitos não morreram, evoluíram. E, na era da IA, voltaram a ser a melhor escolha — síntese da tese que defendeu no palco.
A fala rapidamente repercutiu entre profissionais da área por confrontar uma narrativa consolidada no mercado tecnológico global. Durante boa parte da última década, empresas passaram a dividir aplicações gigantes em estruturas menores e independentes, os chamados microsserviços, buscando escalabilidade e autonomia entre equipes.
No entanto, com o crescimento de ferramentas baseadas em inteligência artificial capazes de auxiliar diretamente no desenvolvimento de software, o cenário começou a mudar.
Rodrigo Serradura defende que agentes de IA funcionam melhor quando conseguem compreender toda a estrutura da aplicação de maneira organizada e integrada. Em arquiteturas extremamente fragmentadas, o entendimento do sistema se torna mais complexo tanto para humanos quanto para máquinas.
Para Serradura, microsserviços fragmentam o contexto que tanto humanos quanto agentes de IA precisam para trabalhar bem — ideia que também aparece no material oficial de divulgação da conferência.
A proposta apresentada por ele não significa voltar aos antigos sistemas monolíticos desorganizados, mas sim evoluir para monólitos modulares: aplicações estruturadas com alta coesão, baixo acoplamento e organização arquitetural clara.
Na prática, segundo Rodrigo Serradura, isso permite que ferramentas de IA encontrem informações com mais facilidade, compreendam regras de negócio de forma mais eficiente e acelerem tarefas como manutenção, testes, refatoração e desenvolvimento de novas funcionalidades.
A discussão ganhou ainda mais relevância porque o engenheiro não fala apenas do ponto de vista teórico. Atualmente, ele atua como AI Champion na Wavelo, empresa global de software para telecomunicações pertencente à canadense Tucows, responsável por soluções utilizadas por operadoras como DISH e Ting Internet.
Dentro da companhia, Rodrigo Serradura liderou a criação do Wavelo Atlas, uma plataforma interna de inteligência artificial que acabou sendo adotada oficialmente por toda a empresa após decisão do CEO.
A experiência prática em ambientes corporativos internacionais fortaleceu ainda mais o impacto da palestra na Tropical on Rails 2026.
Além da apresentação principal, Rodrigo Serradura também conduziu um dos workshops oficiais do evento: “Modularizing Rails Applications in Practice”. A atividade, realizada em formato hands-on, mostrou na prática como transformar aplicações Rails tradicionais em arquiteturas mais organizadas e preparadas para integração com IA.
Durante o workshop, os participantes percorreram mais de 20 versões diferentes de uma mesma aplicação, entendendo como pequenas mudanças estruturais impactam diretamente a capacidade de manutenção e evolução do software.
Outro ponto que chamou atenção na participação de Rodrigo Serradura foi o lançamento do projeto open source Rails Whey App, desenvolvido especialmente para acompanhar os conceitos apresentados na palestra.
O projeto apresenta uma mesma aplicação construída de 28 maneiras diferentes, desde arquiteturas simples com “fat controllers” até modelos complexos baseados em bounded contexts e bancos separados.
A ideia é demonstrar, de forma visual e prática, como diferentes escolhas arquiteturais afetam tanto o trabalho humano quanto o desempenho de agentes de inteligência artificial.
Segundo Rodrigo Serradura, o futuro da engenharia de software não será definido apenas pela capacidade de escrever código, mas pela habilidade de construir sistemas compreensíveis.
“Boa arquitetura é progressive disclosure para qualquer operador, humano ou máquina. Se é simples de encontrar e entender, é simples de manter e evoluir”, defendeu.
A trajetória de Rodrigo Serradura ajuda a explicar o alcance de sua influência no setor. Com 18 anos de carreira em engenharia de software, ele também é fundador da Ada.rb, uma das maiores comunidades brasileiras dedicadas à linguagem Ruby, com mais de mil membros.
Além disso, Rodrigo Serradura é criador das bibliotecas open source Solid::Process e u-case, utilizadas por diversas empresas em ambientes de produção.
Ao longo da carreira, também participou da formação de centenas de profissionais. Seu curso de design orientado a objetos em Ruby já treinou cerca de 300 alunos. Antes da Wavelo, atuou como CTO da DocSales e Head of Engineering da Nomad/Husky, onde ajudou a escalar o time de engenharia e cocriou a Husky Academy, programa voltado à formação de novos desenvolvedores.
A presença de Rodrigo Serradura na Tropical on Rails 2026 simboliza um movimento maior dentro da indústria: a rediscussão de paradigmas técnicos diante do avanço da inteligência artificial.
Enquanto muitas empresas ainda enxergam IA apenas como ferramenta de produtividade isolada, profissionais como Rodrigo Serradura já trabalham na adaptação estrutural de sistemas inteiros para um futuro em que humanos e agentes inteligentes atuarão lado a lado.
Mais do que uma palestra técnica, a apresentação se tornou um convite para que a indústria repense conceitos que durante anos foram tratados como verdades absolutas.
E, ao que tudo indica, o debate sobre monólitos e microsserviços está longe de terminar.
