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Inteligência Artificial no Brasil: tecnologia acelera, mas País ainda não decidiu como pretende competir

  • Créditos/Foto:Arquivo Pessoal
  • 16/Junho/2026
  • Rodrigo dos Santos

 


Publicado em 16 de junho de 2026

Especialista Rodrigo Lousa Simões alerta para a necessidade de o Brasil acelerar investimentos, infraestrutura e políticas estratégicas para não se tornar dependente de tecnologias desenvolvidas no exterior

A inteligência artificial já não pertence ao campo das previsões. Ela está nas empresas, nos governos, nos bancos, nos hospitais, nos escritórios e nas plataformas digitais que organizam o cotidiano. Em poucos anos, deixou de ser ferramenta de automação pontual e passou a analisar grandes volumes de dados, interpretar documentos, produzir conteúdo, identificar padrões e transformar atividades profissionais inteiras.

Para o Brasil, a pergunta já não é se a IA irá modificar a economia ou o funcionamento do Estado. Isso está acontecendo. A questão é outra: o país terá velocidade e planejamento para participar ativamente dessa transformação, ou ficará limitado a consumir soluções desenvolvidas fora?

Depois de mais de 20 anos no setor de tecnologia, em projetos de transformação digital, governança e aplicações de inteligência artificial, percebo que estamos diante de algo diferente das mudanças anteriores. Durante esse período, incluindo a experiência internacional e a liderança da Angerona Technology em projetos para os setores público e privado, acompanhei processos relevantes de digitalização institucional. A IA, no entanto, amplia esse fenômeno numa velocidade e profundidade que não têm comparação.

Ela não informatiza processos existentes — ela altera a lógica por trás deles. Muda como decisões são tomadas, como serviços são prestados, como empresas competem. Sistemas de IA já auxiliam na triagem de documentos, análise de contratos, monitoramento de infraestrutura, atendimento ao cidadão e identificação de irregularidades. Para um país com a estrutura administrativa do Brasil — complexa, fragmentada em múltiplos níveis de governo, com volume colossal de documentos e desafios crônicos de eficiência — esse potencial é real e imediato.

Mas vem acompanhado de riscos que não podem ser ignorados.

A mesma tecnologia capaz de acelerar decisões pode reproduzir preconceitos, violar privacidade, gerar opacidade e aprofundar desigualdades entre empresas, trabalhadores e regiões. Sem governança, o instrumento que poderia modernizar o Estado vira fonte de problemas jurídicos e sociais difíceis de reverter.

O maior risco para o Brasil, porém, talvez seja a lentidão.

Enquanto vários países estruturam ecossistemas de IA com investimentos em infraestrutura computacional, pesquisa, formação profissional, semicondutores e proteção de dados, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para transformar planejamento em execução. Existem iniciativas: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê até R$ 23 bilhões em investimentos públicos até 2028, e o PL nº 2.338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, está em análise na Câmara. São passos necessários. Mas o desafio exige muito mais do que documentos e debates prolongados.

A velocidade da IA não respeita o tempo da burocracia. A cada mês surgem modelos mais avançados, novas aplicações, novas disputas por dados, talentos e infraestrutura. Uma política que leve anos para sair do papel pode nascer ultrapassada.

O Brasil precisa evitar dois extremos: a ausência de regras, que deixaria sistemas de alto impacto operando sem responsabilidade ou proteção aos cidadãos; e a regulação pesada demais, que sufocaria empresas brasileiras e afastaria investimentos. Uma política equilibrada precisa exigir responsabilidade nos usos de maior risco sem impedir que startups nacionais desenvolvam soluções competitivas.

Minha experiência em tecnologia e em contratos com o setor público reforça uma convicção: o Brasil tem capacidade humana, mercado e empresas para se tornar relevante nessa nova economia. O que falta é transformar essa capacidade em prioridade estratégica de Estado — e não apenas em intenção declarada.

Como consultor do Senado para políticas de inteligência artificial, entendo que o debate público precisa ir além da pergunta sobre como regular. Precisamos discutir como o Brasil irá desenvolver suas próprias capacidades, proteger seus interesses econômicos, modernizar o setor público e preparar empresas e trabalhadores para uma realidade que já começou.

A IA não será apenas mais uma ferramenta dentro das organizações. Será parte da infraestrutura econômica e institucional das próximas décadas. Países que dominarem essa tecnologia terão mais produtividade, mais capacidade de inovação e maior influência global. Os que não se prepararem correm o risco real de dependência tecnológica.

O Brasil ainda tem tempo para ocupar uma posição relevante. Mas essa janela não fica aberta para sempre. A transformação não está chegando — já está em curso. E a velocidade da tecnologia exige uma resposta à altura: em políticas, em investimentos e em capacidade de executar.

Não é uma escolha entre inovação e responsabilidade. O Brasil precisa das duas, ao mesmo tempo.

A decisão que temos pela frente é histórica: construir uma estratégia que prepare o país para liderar parte dessa transformação, ou aceitar o papel de consumidor de tecnologias e regras definidas em outros lugares.

O futuro já está sendo redesenhado. O Brasil precisa decidir se quer ajudar a construí-lo.

 

*Rodrigo Lousa Simões é executivo de Tecnologia, CEO e fundador da Angerona Technology e consultor do Senado Federal para políticas de Inteligência Artificial