Compras
Como as redes sociais influenciam compras por impulso e podem levar ao endividamento
- Créditos/Foto:DepositPhotos
- 29/Setembro/2026
- Da Redação
Um post de uma luxuosa viagem dos sonhos, um lançamento que vira febre da noite para o dia, um suplemento que promete revolucionar a saúde em 30 dias. As redes sociais são uma vitrine onipresente, que nunca fecha. Mas será que o preço dessa exposição contínua cabe no bolso – e na mente – do brasileiro?
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Um estudo conduzido pelo Instituto Cactus em parceria com a Atlas Intel, com mais de 3 mil participantes, revela que usuários que passam três horas ou mais diárias nessas plataformas apresentam os piores indicadores de bem-estar emocional. Entre eles, quase metade relatou diagnóstico de ansiedade. Esse desgaste, porém, não fica circunscrito à esfera psicológica: a comparação incessante e o receio de ficar à margem de um estilo de vida exibido como padrão alimentam, progressivamente, decisões de consumo impulsivas.
O fenômeno ganha contornos ainda mais complexos quando se observa o papel de influenciadores digitais na difusão de promessas que beiram o milagroso. De plataformas de apostas (as chamadas bets) a produtos wellness sem respaldo científico, mas vendidos como revoluções para a beleza e o bem-estar, o discurso é o mesmo: a vida melhor começa com este clique e um “pequeno” investimento. No entanto, tal compra, muitas vezes, não atende a uma falta real, mas a uma carência de validação e pertencimento, um eco daquilo que o outro parece ter.
Para Marco Afonso, especialista em finanças, o cerne do problema não está na tela em si, mas no ciclo emocional que ela ativa. “A armadilha se instala quando a compra é usada como antídoto para uma comparação gerada pela rede. O consumidor busca aliviar um incômodo subjetivo, mas, nesse movimento, perde a referência do próprio orçamento. É uma reação de curto-circuito, não uma escolha consciente”, explica. A satisfação imediata e efêmera dá lugar, dias depois, àquela sensação de aperto quando o extrato chega.
Esse padrão não é exceção. Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil mostram que 62% dos consumidores já fizeram compras não planejadas pela internet. Desses, 40% admitem ter gasto além da conta, e 35% contraíram dívidas ou atrasaram pagamentos por conta de impulsos. O debate ganha contornos significativos com os crescentes níveis de endividamento, que, segundo o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa, registrou 83,7 milhões de pessoas em junho deste ano.
Já o parcelamento, principalmente quando feito em compras impulsivas, estabelece uma ilusão de controle financeiro. Pequenos gastos recorrentes e prestações que parecem caber no bolso podem criar uma falsa sensação de equilíbrio sobre o orçamento, enquanto escondem o real comprometimento da renda ao longo dos meses.
Segundo o especialista da Simplic, “o combate a essa realidade passa, inevitavelmente, pela educação financeira. Isso significa desenvolver o hábito de acompanhar rotineiramente o orçamento, estabelecer limites para despesas não essenciais e criar um intervalo entre o desejo de compra e a decisão final, para se perguntar se esse gasto realmente é uma necessidade ou apenas necessidade emocional. São pequenas mudanças de comportamento que ajudam o consumidor a reduzir decisões impulsivas e manter as finanças sob controle”.
Entretanto, a ruptura desse ciclo exige ir além da técnica. “As redes continuarão a influenciar comportamentos. Isso já é estrutural e parte de nosso dia a dia. O fundamental é desenvolver uma percepção crítica sobre essas influências, reconhecer quando uma compra está alinhada a objetivos reais de vida e quando ela é fruto de uma comparação passageira ou de uma carência de pertencimento. Quando o consumo vira tentativa de compensar um mal-estar, ele oferece um alívio instantâneo, mas costuma cobrar um preço alto no futuro, e não só financeiro”, ressalta Afonso.
E esse preço, muitas vezes, se realimenta. A dívida gera estresse, a ansiedade reduz a clareza para decisões racionais e a vulnerabilidade financeira torna o indivíduo ainda mais suscetível a novas promessas milagrosas que pipocam no feed – um novo suplemento, uma aposta que “muda a vida”, um curso que “resolve tudo”. Assim, cria-se um ciclo vicioso: redes sociais geram desconforto emocional, que leva ao consumo por impulso, que facilita o endividamento, que agrava a saúde mental e essa fragilidade reintroduz o usuário ao cardápio infindável de “soluções mágicas” oferecidas.
A saída, para o especialista, não é a abstinência digital, mas o cultivo de uma relação mais consciente com o dinheiro e com a própria subjetividade. “Educação financeira não significa abrir mão de tudo, mas fazer escolhas com sobriedade e quebrar o ciclo gerado pela exposição constante. É entender que pertencimento não se compra, e que a vida melhor, na maioria das vezes, não está em um produto, mas naquilo que conseguimos construir sem pressa e sem dívidas”, conclui Afonso.
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