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Recarga inteligente vira novo desafio para empresas que eletrificam frotas comerciais
- Créditos/Foto:Marcin Jozwiak na Unsplash
- 18/Agosto/2026
- Da Redação
A eletrificação de caminhões e veículos comerciais começa a entrar em uma nova fase. Depois de anos em que boa parte das discussões esteve concentrada na autonomia dos veículos, no preço das baterias e na oferta de modelos elétricos, empresas que avançam na adoção dessa tecnologia encontram um desafio menos visível: fazer com que toda a operação funcione de maneira integrada.
Para uma frota comercial, não basta que o veículo apresente autonomia suficiente no catálogo. Ele precisa completar sua rota, retornar com uma margem adequada de energia, encontrar infraestrutura disponível, recarregar dentro da janela operacional e estar novamente pronto para trabalhar no turno seguinte.
Para o engenheiro eletricista e especialista em mobilidade elétrica Carlos Alberto Rocha Lopes, essa é uma das principais diferenças entre simplesmente adquirir veículos elétricos e estruturar uma operação eficiente.
“Eletrificar uma frota não significa apenas retirar um caminhão a diesel e colocar um elétrico no lugar. A empresa passa a administrar um sistema formado pelo veículo, pela bateria, pela rota, pela infraestrutura elétrica, pela recarga e pela própria operação logística. Essas partes precisam funcionar de maneira integrada”, explica Lopes.
Planejamento começa pela operação
Uma das decisões mais importantes ocorre antes mesmo da escolha do veículo.
Distância percorrida diariamente, quantidade de paradas, peso transportado, topografia, temperatura, tempo disponível entre turnos e permanência dos caminhões no depósito são algumas das variáveis que interferem diretamente no desempenho de uma frota elétrica.
Por isso, segundo Lopes, o primeiro passo deve ser compreender o perfil operacional.
“A pergunta inicial não deveria ser qual é o carregador mais potente que a empresa pode instalar. É preciso entender quanta energia cada veículo realmente consome, quanto tempo permanece disponível para recarga e qual será sua próxima missão.”
Essa análise pode evitar investimentos desnecessários. Veículos que permanecem várias horas estacionados durante a noite, por exemplo, podem não precisar de carregadores funcionando continuamente em potência máxima.
Já operações com múltiplos turnos, grande quilometragem diária ou pouco tempo entre viagens podem exigir recarga mais rápida e uma infraestrutura elétrica significativamente maior.
Nos Estados Unidos, órgãos ligados ao Departamento de Energia vêm destacando a importância do planejamento da infraestrutura para a expansão das frotas comerciais elétricas, especialmente em depósitos capazes de concentrar dezenas de veículos.
Telemetria ganha uma nova função
A eletrificação também amplia o papel da telemetria.
Tradicionalmente utilizada para acompanhar localização, velocidade, comportamento de condução e produtividade, a tecnologia passa a fornecer informações importantes sobre o consumo energético e a condição das baterias.
Dois indicadores tornam-se particularmente relevantes: o SOC (State of Charge), que indica o nível de carga disponível, e o SOH (State of Health), utilizado para acompanhar a condição da bateria ao longo de sua vida útil.
“O SOC ajuda a administrar a operação diária. O SOH permite acompanhar a evolução do ativo. Quando essas informações são combinadas com rota, consumo, disponibilidade e manutenção, a empresa consegue trabalhar de maneira muito mais preventiva”, afirma Lopes.
O engenheiro participou da implantação de soluções de telemetria aplicadas a uma frota de caminhões elétricos da No Carbon, empresa do grupo JBS. O projeto envolveu monitoramento da saúde das baterias, disponibilidade dos veículos e gestão de manutenção preventiva.
Em 2024, Lopes apresentou o case “Telemática e Sustentabilidade: Otimizando a Gestão de Frotas da No Carbon” durante o Congresso AIAFA Brasil, ao lado da Geotab. No mesmo ano, a No Carbon foi reconhecida nos Prêmios Frotas 2024 na categoria Inovação Tecnológica e Digital por soluções de telemetria aplicadas à operação.
Transporte refrigerado aumenta a complexidade
Em operações de distribuição de alimentos e produtos refrigerados, a equação se torna ainda mais complexa.
Além da energia utilizada para movimentar o caminhão, é necessário considerar o sistema responsável pela manutenção da temperatura da carga.
Temperatura externa, quantidade de entregas, frequência de abertura das portas e características do equipamento de refrigeração podem interferir no consumo energético.
Lopes trabalhou no desenvolvimento e aperfeiçoamento de sistemas de refrigeração para caminhões elétricos, buscando equilibrar conservação da carga, autonomia e eficiência elétrica.
“No transporte refrigerado, dois caminhões podem percorrer a mesma distância e apresentar necessidades energéticas diferentes. É preciso analisar como cada operação realmente acontece.”
Recarga também precisa ser inteligente
Outro conceito que ganha espaço é o gerenciamento inteligente da recarga.
Em vez de todos os caminhões começarem a carregar simultaneamente na potência máxima, sistemas de gerenciamento podem distribuir a energia conforme a prioridade operacional de cada veículo.
Um caminhão programado para sair às 4h, por exemplo, pode receber prioridade sobre outro cuja próxima viagem começa apenas às 9h. O sistema também pode administrar a potência utilizada para reduzir picos de demanda elétrica.
Para Lopes, essa integração transforma a recarga em parte efetiva da logística.
“O carregador deixa de ser apenas um equipamento de fornecimento de energia. A empresa pode decidir quando e quanto carregar considerando horário de saída, rota prevista, energia disponível na bateria e prioridade operacional.”
Disponibilidade continua sendo o objetivo
Apesar da evolução tecnológica, o especialista ressalta que o principal objetivo de uma frota comercial permanece o mesmo: manter os veículos disponíveis para executar as operações previstas.
Autonomia máxima, tamanho da bateria e potência do carregador são indicadores importantes, mas precisam ser analisados junto com produtividade, manutenção, consumo de energia e custo operacional.
“Uma empresa não compra caminhões para deixá-los carregando. Ela compra caminhões para realizar entregas. Por isso, a eletrificação precisa ser planejada para garantir disponibilidade e confiabilidade operacional.”
Com a expansão dos veículos comerciais elétricos, a vantagem competitiva pode deixar de estar simplesmente em possuir a tecnologia.
Cada vez mais, estará em saber como operá-la.
