33Giga Tecnologia para pessoas

Corporativo

A infraestrutura invisível por trás das empresas que crescem

  • Créditos/Foto:Arquivo Pessoal
  • 28/Setembro/2026
  • Chiara Ferrazzi

 


Publicada em 28 de setembro de 2026

Quando uma empresa amplia sua área física, contrata funcionários, abre novas unidades ou passa a atender um número maior de clientes, parte desse crescimento pode ser percebida com facilidade. Há mais pessoas trabalhando, novos equipamentos, maior circulação de mercadorias e uma operação comercial mais intensa. Menos visível, porém, é a infraestrutura tecnológica que precisa acompanhar cada etapa dessa expansão.

Redes de dados, servidores, sistemas de segurança, conexões redundantes, políticas de backup, equipamentos de alto desempenho e suporte técnico formam uma estrutura que raramente aparece para o consumidor. Ainda assim, é ela que permite que caixas registrem vendas, equipes acessem sistemas, centros logísticos controlem estoques e gestores tomem decisões com base em informações atualizadas.

A trajetória de Rafael Lourenzetto Camargo foi construída justamente nesse ambiente de bastidores. Ao longo de mais de duas décadas, ele acompanhou a evolução da informática básica para as redes corporativas, participou da criação de um provedor de internet e conduziu projetos de infraestrutura destinados a sustentar operações empresariais de diferentes portes.

Sua relação com a tecnologia começou aos 14 anos, quando realizou cursos de informática, incluindo Word, Excel, Access e lógica de programação. Entre os 15 e os 16 anos, passou a auxiliar nos laboratórios da escola onde estudava. Além de colaborar na manutenção dos computadores, começou a transmitir o que aprendia em aulas para iniciantes.

As primeiras aulas particulares representaram o início de sua atividade profissional remunerada. Em agosto de 2003, surgiu a oportunidade de ingressar na Kmack – Logística, Equipamentos e Embalagens Ltda. Foi nesse período que Rafael passou a ter contato mais direto com redes, servidores Dell, sistemas Microsoft Server, atendimento aos usuários e ferramentas de gestão.

A experiência também mostrou que a tecnologia empresarial exigia mais do que conhecimento sobre equipamentos. Era necessário compreender como as diferentes áreas de uma organização dependiam dos sistemas e como uma falha poderia afetar a rotina de toda a operação.

Depois de uma passagem por uma empresa de engenharia civil, na qual participou da reorganização da rede e da configuração da segurança de dados, Rafael intensificou os estudos em programação, manutenção preventiva e infraestrutura. Foi nessa fase que desenvolveu um dos primeiros projetos próprios, destinado a uma banca de jornal e livraria. O trabalho começou com a montagem da rede de computadores e evoluiu para a interligação entre unidades.

Na sequência, Rafael ingressou na Fracto Soluções Tecnológicas Avançadas Ltda., empresa que atuava com hospedagem de sites e servidores Linux e Windows. Contratado inicialmente por sua experiência com a plataforma Microsoft, ampliou seus conhecimentos em Linux e passou a trabalhar com servidores hospedados em data center.

Cerca de seis meses depois, foi direcionado para atender a sede do Greenpeace em São Paulo. Ali, ficou envolvido na administração da rede, no suporte aos usuários, na gestão de servidores, na segurança e nas compras do setor de tecnologia, sob supervisão da empresa que o contratara.

A experiência ampliou seu contato com diferentes demandas organizacionais. Rafael também se aproximou da programação e do banco de dados SQL Server, ao mesmo tempo que acompanhava necessidades administrativas. Fora do horário de trabalho, realizou serviços adicionais e destinou parte da renda a cursos de programação em C, bancos de dados, Linux, firewalls e sistemas de câmeras.

Em 2006, decidiu criar a Newertech Soluções Tecnológicas. A empresa nasceu com um investimento de aproximadamente R$ 10 mil e com a proposta de desenvolver projetos personalizados, prestar serviços e fornecer soluções tecnológicas para negócios de diferentes segmentos, com presença relevante entre restaurantes.

Nos cinco anos seguintes, a Newertech ampliou sua atuação e chegou a reunir quase 50 profissionais diretos e indiretos. Os atendimentos ultrapassaram o estado de São Paulo e alcançaram localidades em Santa Catarina, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Amazonas, Ceará e Rio de Janeiro.

Uma parceria relacionada ao sistema SnackControl, posteriormente conhecido como Bematech Chef, contribuiu para essa expansão. Enquanto a plataforma se concentrava no software, a Newertech desenvolvia projetos de infraestrutura, realizava implantações e administrava ativos tecnológicos dos clientes. A operação chegou a atender estabelecimentos situados em shopping centers da cidade de São Paulo.

A perda dessa parceria e a retração de alguns setores atendidos pela empresa provocaram uma mudança profunda. Entre 2011 e 2012, a Newertech enfrentou dificuldades financeiras e viu sua estrutura ser reduzida para três pessoas, incluindo Rafael. A necessidade de encontrar uma nova frente de atuação levou a empresa ao mercado de conectividade.

Naquele período, a banda larga ainda apresentava limitações de preço e cobertura em determinadas regiões. A partir de uma demanda surgida na vizinhança de seus pais, Rafael começou a estudar a viabilidade de distribuir conexão por meio de redes sem fio.

Foram cerca de seis meses de aprofundamento em Mikrotik, Cisco, Linux, ITIL, redes de alta performance e soluções wireless. Com o apoio de fornecedores e parceiros de equipamentos, a operação começou na casa de seus pais, distribuindo planos de 128, 256 e 512 kilobits por segundo por rádio na frequência de 2,4 GHz.

Uma torre de aproximadamente 30 metros marcou o início da nova estrutura. Em três meses, o serviço alcançou cerca de 100 clientes. A expansão exigiu estações de repetição, licenciamento e novos conhecimentos sobre radiofrequência. A rede chegou a reunir aproximadamente 12 estações licenciadas pela Agência Nacional de Telecomunicações, segundo a documentação apresentada pelo profissional.

A experiência como provedor mudou a dimensão dos projetos desenvolvidos por Rafael. Depois da primeira etapa baseada em rádio, a empresa passou a investir em redes metálicas, com estruturas aéreas e subterrâneas. Os serviços alcançaram seis bairros e passaram a oferecer conexões de 1, 3 e 5 megabits por segundo, velocidades consideradas competitivas naquele contexto.

O crescimento trouxe clientes, mas também expôs limitações. Chuvas e descargas elétricas aumentavam os custos de manutenção da rede metálica e afetavam a estabilidade do serviço. Em 2016, quando a operação registrava aproximadamente 2 mil clientes, teve início uma nova migração: a implantação de fibra óptica.

Rafael realizou treinamentos em FTTx, FTTH, equipamentos ativos e passivos, potência e transmissão de sinal. Em 2017, as centrais de comunicação começaram a ser interligadas por fibra, enquanto servidores e links de dados eram incorporados à nova arquitetura.

O provedor, registrado com o nome NT Online, ampliou a cobertura e passou a atender integralmente três cidades. A estrutura ganhou data center próprio, servidores Dell, racks organizados, redundância de energia, nobreaks, gerador, roteadores de alta performance e firewalls com capacidade de acompanhar a ampliação da operação.

Entre 2018 e 2022, enquanto a NT Online aumentava sua carteira de clientes, Rafael passou a concentrar parte de sua atividade na administração financeira, nos serviços do data center e na captação de novos projetos corporativos. Os trabalhos incluíam topologia física e lógica, segurança de dados, servidores, firewalls, documentação técnica e atendimento aos usuários.

Um dos projetos mais extensos começou em 2012, no centro de distribuição da Rubens Infante Variedades, conhecida como Lojas BBB – O Grande Outlet. A demanda inicial era relativamente delimitada: melhorar uma conexão de internet que apresentava dificuldades e interligar o centro logístico à loja principal para permitir o acesso em tempo real às câmeras de segurança.

Com o crescimento da empresa, entretanto, a infraestrutura precisou evoluir. Em 2012, conforme informações fornecidas para elaboração deste perfil, o cliente possuía um centro logístico de aproximadamente 2 mil metros quadrados, 16 câmeras, um computador e conexão de 5 megabits. As duas lojas reuniam cerca de 32 câmeras, dois computadores e não contavam com equipe própria de tecnologia.

Em 2025, a estrutura informada alcançava uma loja e estacionamento com aproximadamente 22 mil metros quadrados, 50 terminais de caixa, mais de 150 computadores e 400 câmeras digitais em alta definição. A operação também passou a contar com Wi-Fi profissional, dois centros de servidores, redundância elétrica, geradores, cabeamento estruturado certificado, dois níveis de firewall, servidores Dell, núcleo de rede Cisco e conexão de fibra óptica de 1 gigabit.

O centro logístico, por sua vez, chegou a cerca de 26 mil metros quadrados, mais de 200 computadores e notebooks, aproximadamente 500 câmeras e rede Wi-Fi destinada também a coletores de dados. O ambiente foi segmentado por VLANs, recurso utilizado para separar diferentes áreas da rede e reduzir acessos internos indevidos.

A expansão não se limitou à infraestrutura física. Rafael afirma ter participado da formação e da coordenação de uma equipe interna de desenvolvimento, composta por quatro profissionais, e de outra equipe dedicada ao suporte e à infraestrutura. Entre suas atribuições ficaram servidores, backups, firewalls, planejamento de expansão, segurança de dados e gestão de riscos tecnológicos.

O caso demonstra como uma decisão inicialmente voltada à conectividade pode evoluir conforme a operação empresarial ganha escala. A rede deixa de ser apenas um meio de acesso à internet e passa a integrar vendas, logística, segurança, comunicação e gestão.

Em 2023, Rafael decidiu reduzir sua participação direta nas atividades técnicas e transferir parte da administração das redes e dos servidores a um consultor. O objetivo era dedicar mais tempo ao planejamento estratégico. Em maio de 2024, participou da criação da IP3Tech Solução em Voz IP, assumindo a diretoria de Operações e Implantação. A empresa atua com telefonia digital, PABX em nuvem e chatbots integrados a sistemas de gestão, especialmente nos segmentos farmacêutico e de provedores de internet.

Da sala de informática da adolescência aos ambientes empresariais com centenas de dispositivos conectados, a trajetória de Rafael acompanha diferentes fases da conectividade no Brasil. Rádio, rede metálica, fibra óptica, data centers, segurança digital e telefonia em nuvem representam etapas de um mesmo processo: construir estruturas capazes de crescer sem interromper a operação que depende delas.

É nesse ponto que a infraestrutura invisível se torna decisiva. Quando funciona, quase nunca é percebida. Quando falha, revela imediatamente a quantidade de atividades que dependem dela. O trabalho desenvolvido por Rafael ao longo dos anos se encontra nessa fronteira: transformar escolhas técnicas em condições concretas para que empresas continuem operando, ampliem sua capacidade e sustentem novas etapas de crescimento.