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Artigo de opinião: quem vai matar Obets Roitman?
- Créditos/Foto:Reprodução/Rede Globo
- 17/Outubro/2025
- Autor Convidado
*Por José Elias Mendes // Hoje (17), o Brasil vai parar diante da TV para descobrir (de novo) quem matou Odete Roitman. O remake de Vale Tudo está prometendo entregar a resposta final de um dos maiores mistérios da teledramaturgia nacional.
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Enquanto o País tenta desvendar o assassinato mais famoso da ficção, do lado de cá a gente já sabe o nome da vilã da vida real: Obets Roitman. Disfarçada de entretenimento, a nova antagonista brasileira não usa ombreiras nem pérolas. Usa algoritmos.
Na novela da vida real, não tem abertura da TV Globo nem trilha sonora. Tem um enredo que se repete: gente comum sendo seduzida, manipulada, endividada e, muitas vezes, destruída.
As casas de apostas hoje movimentam cifras bilionárias no Brasil. Apenas as bets regulamentadas já gastam mais de R$ 1 bilhão por ano só com patrocínio de times de futebol. Isso sem contar publicidade em plataformas digitais, campeonatos, influenciadores, canais de streaming e TV aberta. A presença dessas marcas é tão massiva que deixou de ser exceção para virar paisagem.
Só que há uma diferença fundamental entre a aposta e a paisagem: uma delas adoece. 67% dos apostadores desenvolvem vício em menos de um ano; 94% escondem o problema da própria família; e 78% relatam impacto direto na saúde mental. Esses números não são ficção. São a nova estatística brasileira da destruição.
Enquanto isso, a publicidade chama de “iGaming”, “diversão”, “experiência”. A vítima? É coletiva. São milhares de jovens, trabalhadores e mães e pais de família que perderam controle, rotina e dignidade.
Aplicativo para quem quer recomeçar
Foi por isso que resolvi ajudar, de forma voluntária, um projeto chamado Aposta Zero. O app é gratuito, anônimo e foi criado para quem decidiu parar de apostar. Sem julgamentos, sem burocracia, sem monetização obscura.
A proposta é simples e humana: oferecer um ambiente seguro para recomeçar. O usuário pode fazer check-ins diários, completar desafios de recuperação, acessar trilhas de meditação, interagir com uma comunidade acolhedora e, se quiser, agendar atendimento com profissionais da psicologia ou das finanças (em modelo pago e transparente). Tudo com respeito à privacidade.
O Aposta Zero foi idealizado por Jezriel Francis, mineiro de Divinópolis, depois de acompanhar de perto dois casos de pessoas próximas que enfrentaram o vício. “O que vi foi devastador. Não é uma questão de caráter. É uma doença que isola, mina a confiança e destrói vínculos”, diz ele.
O app já está no ar e funcionando em beta aberto, mas para continuar existindo, precisa do apoio de empresas que queiram patrocinar o acesso de colaboradores, clientes ou comunidades. Não estamos falando de caridade, mas de responsabilidade. Quem lucra com o prazer precisa também contribuir com o cuidado.
Obets Roitman não é uma pessoa. É um sistema.
Enquanto o capítulo final da novela não chega, o desfecho que realmente importa continua sendo escrito, em silêncio, no cotidiano de milhões de brasileiros. O que vai matar Obets Roitman, no fim das contas, não será uma bala no capítulo das nove. Vai ser consciência. Regulação. Apoio. Solução. E, talvez, se a imprensa fizer sua parte, visibilidade.
*José Elias Mendes é jornalista e atua como voluntário no Aposta Zero, plataforma gratuita que oferece suporte profissional a viciados em apostas
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