Segurança
Opinião: a primeira eleição na era da IA e seu impacto na democracia
- Créditos/Foto:DepositPhotos
- 21/Setembro/2026
- Autor Convidado
*Por Luiz Milagres // O maior risco da eleição de outubro não vem das campanhas, vem do grupo de WhatsApp da sua família. A inteligência artificial não inventou a mentira. A disputa política e a manipulação narrativa sempre fizeram parte da história da humanidade. No entanto, o que muda no próximo pleito é a escala, a velocidade e o grau de fidelidade com que a tecnologia viabiliza a criação de conteúdos.
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Se no dia a dia a IA generativa já transforma a dinâmica social e o consumo de informação de formas tão profundas, o seu uso intensivo em um período eleitoral eleva o debate para outro patamar de complexidade, impactando não apenas o cidadão individualmente, mas a estabilidade das instituições e a própria confiança no processo democrático.
Como exemplo do potencial desse impacto, em 2025, circulou um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro, recriado por IA, anunciando uma última chance de resgatar dinheiro esquecido no Banco Central, exigindo uma taxa via Pix. A tecnologia tornou-se uma ferramenta capaz de projetar rostos e clonar vozes com precisão hiper-realista, explorando o elemento mais vulnerável da segurança digital, que é a confiança interpessoal. Em outubro, esse mesmo modelo de golpe pode voltar com a cara do seu candidato, e quem vai te encaminhar o conteúdo não é o adversário, mas alguém próximo, agindo de boa-fé.
O risco maior não está apenas nos canais abertos de campanha, mas na disseminação capilarizada em ambientes privados de mensagem, em que a informação chega chancelada por laços de afeto e proximidade. A fraude na era da IA opera sequestrando a reputação de terceiros, seja simulando o rosto e a voz de um líder político, seja forjando a chancela de veículos de imprensa consolidados ou criando correntes de mensagens automatizadas.
Trata-se de um fenômeno que barateou o custo da desinformação em massa, colocando um poder de influência desproporcional na mão de qualquer agente malicioso. E, no ambiente corporativo e político, a credibilidade é o ativo mais caro e complexo de ser reconstituído após um incidente de imagem.
No âmbito regulatório, a lei existe e é boa. As diretrizes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelecem regras claras contra deepfakes, exigem a rotulagem de conteúdos sintéticos na propaganda e responsabilizam plataformas omissas. Contudo, existe uma assimetria estrutural entre o tempo da norma e o tempo da tecnologia. A legislação atua na velocidade da Justiça, enquanto a desinformação atua na velocidade do algoritmo.
Dados da pesquisa Genial/Quaest indicam que 73% dos eleitores desaprovam o uso de IA nas campanhas eleitorais. Mas reprovar não significa reconhecer. Ninguém se protege sozinho de um vídeo bem feito às 23h, cansado e com o dedo já pronto para repassar adiante. A dúvida tem que ser um hábito e não um mero incômodo.
Diante desse cenário, a informação exige uma postura institucional e individual de checagem contínua que parte de cada um. Validar fontes em canais oficiais e veículos de imprensa com governança editorial consolidada deixa de ser apenas uma boa prática para se tornar um requisito de segurança democrática.
A inteligência artificial sofisticou o formato das ameaças digitais, mas a primeira linha de defesa continua sendo a governança, o sentido crítico e a responsabilidade sobre a informação que se consome e se compartilha.
*Luiz Milagres é empresário, executivo de riscos digitais, palestrante, professor e comentarista de riscos, tecnologia e cibersegurança
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