Ciência
Obesidade cresce no Brasil e reforça debate sobre mitos do emagrecimento
- Créditos/Foto:DepositPhotos
- 14/Agosto/2026
- Da Redação
O número de adultos com obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo dados da pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), divulgados pelo Ministério da Saúde. Apesar do avanço da condição, uma ideia continua presente no imaginário popular: a de que emagrecer depende apenas de disciplina, controle alimentar e prática de exercícios.
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Para a nutricionista e psicóloga Flávia Lucena, essa interpretação ignora a complexidade de uma doença que envolve fatores biológicos, emocionais, comportamentais, sociais e ambientais. “Quando atribuímos a obesidade exclusivamente à falta de esforço individual, deixamos de enxergar tudo o que influencia o peso corporal ao longo da vida. O problema é que essa visão gera culpa, mas não necessariamente soluções”, afirma.
A especialista explica que o peso é resultado de uma combinação de fatores que vão muito além da alimentação. Aspectos como genética, alterações hormonais, privação de sono, estresse crônico, saúde mental, uso de medicamentos, histórico familiar e condições de vida também podem influenciar o desenvolvimento da obesidade. “Quando alguém chega ao consultório, eu não estou olhando apenas para o peso. Estou tentando entender o que acontece naquele organismo e naquela história de vida para que o corpo esteja respondendo dessa forma.”
Segundo Flávia, um dos efeitos mais nocivos dos discursos simplistas é a associação entre peso corporal e valor pessoal. “Muitas pessoas passam a acreditar que o próprio corpo é uma prova de fracasso ou falta de disciplina. Esse sentimento costuma vir acompanhado de vergonha, autocrítica e sofrimento emocional, o que pode tornar a relação com a alimentação ainda mais difícil”, comenta.
Ela ressalta que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar causas e necessidades completamente diferentes. “Uma pode estar enfrentando resistência à insulina, outra, alterações hormonais e uma terceira, um quadro de ansiedade ou anos de tentativas frustradas de emagrecimento. Por isso, não existe uma única explicação nem uma única solução.”
A nutricionista observa que a alimentação também cumpre funções emocionais, afetivas e culturais que frequentemente são ignoradas quando o assunto se resume à perda de peso. “A comida não atende apenas necessidades biológicas. Ela está presente em momentos de celebração, pertencimento, memória, prazer e conforto emocional. Quando desconsideramos esses aspectos, deixamos de compreender parte importante do comportamento alimentar.”
Para Flávia, o nutrir com acolhimento se torna mais efetivo quando substitui o julgamento pela compreensão. “Acolher não significa romantizar a obesidade ou abandonar objetivos relacionados à saúde. Significa reconhecer que mudanças sustentáveis acontecem quando a pessoa encontra apoio, recursos emocionais e estratégias compatíveis com sua realidade.”
Em um cenário em que o debate sobre emagrecimento ainda costuma ser marcado por fórmulas rápidas e respostas prontas, a especialista propõe uma reflexão. “A pergunta não é por que alguém não consegue emagrecer. Talvez seja quantas vezes essa pessoa tentou resolver um problema complexo recebendo apenas respostas simples”, finaliza.
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