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Futebol e inclusão: quando a paixão da Copa se cruza com a trajetória de uma especialista

  • Créditos/Foto:Arquivo Pessoal
  • 08/Julho/2026
  • Nathalia Carvalho

 

Publicado em 8 de julho de 2026

Quando o assunto é Copa do Mundo, o Brasil pulsa ao ritmo do futebol. O esporte mais praticado do planeta mobiliza famílias, amigos e cidades inteiras em um ritual que se intensifica a cada ciclo do torneio. Essa paixão nacional não deveria excluir ninguém — e é justamente a ideia de que todo mundo pode jogar que impulsiona iniciativas de inclusão nas quadras e nos campos. Ao longo das últimas décadas surgiram adaptações para permitir a participação de pessoas com deficiência visual, auditiva, amputados, cadeirantes e atletas com paralisia cerebral. Nos Jogos Paralímpicos, por exemplo, existem duas modalidades oficiais: o futebol de 5, para atletas com deficiência visual, e o futebol de 7, para pessoas com paralisia cerebral; fora deles, também há campeonatos de futebol para surdos, amputados e o power soccer, jogado em cadeiras motorizadas.

Para ilustrar como a magia da Copa pode servir de ponte para a inclusão, esta reportagem foca na trajetória da professora Michele Lafraia. Natural de Curitiba (PR), Michele formou-se em Educação Física pela Universidade Tuiuti do Paraná em 2002 e, duas décadas depois, concluiu Pedagogia na Faculdade Campos Eliseos. Ao longo da carreira, atuou como professora de educação infantil, de Ensino Fundamental e de Educação Física em escolas públicas e privadas, além de assumir a coordenação pedagógica de educação física e atividades extracurriculares entre 2014 e 2019. Nessas funções, planejou aulas que valorizavam a diversidade, coordenou projetos de alfabetização corporal, orientou outros professores e organizou eventos esportivos e recreativos. Com especializações e extensões em Necessidades Educacionais Especiais e Autismo, formação em recreação e lazer, e domínio intermediário de inglês, ela se dedica à inclusão escolar de crianças com deficiência.

Michele também traz experiência internacional: Ela está nos Estados Unidos se aperfeiçoando em inglês, e usando o tempo livre como voluntária junto a igrejas e instituições com crianças  e jovens com diferentes necessidades especiais.

Reconhecida como especialista e referência em educação física adaptada, Michele atualmente coordena iniciativas de esporte inclusivo e publica artigos sobre o tema. No clima de Copa, ela conversou com a MSN para contar como o futebol pode ser uma ferramenta de inclusão e compartilhar insights baseados em sua carreira. Nas linhas a seguir, a bola está com ela.

Pergunta – O Brasil vive o clima de mais uma Copa do Mundo. Com sua vivência em escolas do Brasil e do exterior, por que o futebol é tão poderoso como ferramenta de inclusão?

Resposta de Michele Lafraia – O futebol é uma linguagem universal; todo mundo entende uma bola rolando. Nas comunidades, é comum ver garotos e garotas improvisando gols com chinelos, e é essa simplicidade que torna o jogo acessível. Quando adaptamos regras e equipamentos, mostramos que as pessoas com deficiência também fazem parte dessa festa. Não podemos esquecer que, nos Jogos Paralímpicos, existem modalidades oficiais de futebol — o futebol de 5 para atletas com deficiência visual e o futebol de 7 para pessoas com paralisia cerebral. Fora dos Jogos, há futebol para amputados e o power soccer, disputado em cadeiras de rodas motorizadas. Em todas essas variações, o objetivo é dar às pessoas a mesma sensação de pertencimento que um torcedor sente ao cantar o hino no estádio. Na minha experiência nos Estados Unidos, vi escolas adaptarem os pátios para que crianças em cadeiras motorizadas participassem de partidas; aqui no Brasil fizemos o mesmo em projetos sociais. A alegria é a mesma em qualquer lugar do mundo.

Pergunta – Como funcionam essas versões adaptadas? Há muitas diferenças em relação ao futebol “tradicional”? Fale um pouco sobre o que você viu nos projetos que coordenou.

Resposta de Michele Lafraia – As adaptações são pensadas para garantir segurança e igualdade entre os participantes. No futebol de 5, por exemplo, quatro jogadores usam vendas e o goleiro tem visão total; a bola tem guizos para orientar os atletas e cada equipe conta com três guias (o goleiro, um chamador atrás do gol adversário e o técnico) para dar referências de posição. O jogo é dividido em dois tempos de 25 minutos. Já o futebol de 7 é jogado por seis atletas de linha mais o goleiro; não há impedimento e os laterais podem ser cobrados com uma das mãos. Há também o futebol para amputados, no qual cada equipe tem sete jogadores; os atletas de linha utilizam muletas e apenas o goleiro tem amputação ou deficiência nos membros superiores; as muletas não podem tocar a bola de forma intencional. No power soccer, quatro jogadores competem em cadeiras de rodas motorizadas com um dispositivo chamado footguard; as partidas têm dois tempos de 20 minutos e as cadeiras podem atingir até 10 km/h. Quando implantei um projeto de futebol de 5 em uma escola pública, percebi que a adaptação das regras foi acolhida rapidamente pelos alunos sem deficiência; eles se divertiam ao experimentar a venda e entender como é jogar usando a audição. Em cursos no exterior, vi equipes de power soccer utilizando tecnologia para aumentar a autonomia dos atletas, o que inspira nossa prática por aqui.

Pergunta – Quais benefícios a prática do futebol traz para crianças e jovens com deficiência? Como esses benefícios se manifestaram em sua atuação como professora e coordenadora?

Resposta de Michele Lafraia – Os benefícios são imensos e vão muito além do condicionamento físico. Estudos recomendam que crianças e adolescentes de 6 a 17 anos pratiquem ao menos 60 minutos diários de atividades moderadas a vigorosas. Para quem tem deficiência, isso é ainda mais importante: o exercício melhora a capacidade pulmonar e a força muscular, contribui para a saúde física e cognitiva e ajuda a controlar o peso. Como professora de educação física, vi alunos que tinham dificuldade de socialização ganharem confiança ao participar de jogos coletivos; o esporte reduziu o isolamento, aumentou o sentimento de inclusão e fortaleceu a autoestima. Como coordenadora, acompanhei a evolução acadêmica de crianças que passaram a praticar futebol adaptado — elas passaram a concentrar mais nas aulas e melhorar as notas. Outro ponto é que o futebol, por ser coletivo, ensina disciplina, respeito às regras e trabalha a empatia, aspectos essenciais para o desenvolvimento social e emocional.

Pergunta – Muitos pais relatam dificuldades para iniciar seus filhos no esporte. Quais obstáculos ainda precisam ser superados, de acordo com sua experiência no Brasil e no exterior?

Resposta de Michele Lafraia – Infelizmente, ainda existem várias barreiras. Crianças com deficiência enfrentam limitações físicas ou mentais, muitas vezes possuem baixa autoestima ou medo de serem julgadas e, em algumas famílias, o custo de equipamentos adaptados é alto. Há também a falta de estruturas acessíveis e de profissionais capacitados em esportes adaptados. O bullying e os estereótipos são uma realidade, e isso afasta os jovens da prática esportiva. Nos Estados Unidos, encontrei escolas com quadras adaptadas e profissionais preparados, mas também enfrentamos resistência de pais e alunos que não se sentiam capazes. No Brasil, ainda lutamos por infraestrutura e formação. Por isso, programas inclusivos devem envolver não só equipamentos e espaços adequados, mas também campanhas de sensibilização e formação contínua de professores.

Pergunta – O que as famílias e escolas podem fazer para incentivar a participação? Quais estratégias você utilizou em sua carreira?

Resposta de Michele Lafraia – O primeiro passo é ouvir a criança para descobrir de que atividades ela gosta e quais são suas facilidades. A maioria dos esportes pode ser adaptada, então é importante conversar com pediatras e educadores físicos para receber orientações e realizar uma avaliação pré-participação. Na escola em que fui coordenadora, realizávamos reuniões regulares com famílias para explicar as adaptações e mostrar vídeos de atletas paralímpicos. Também criamos oficinas de inclusão em que alunos sem deficiência experimentavam recursos como vendas ou cadeiras de rodas. Hoje existem iniciativas que ajudam nessa jornada, como a Escola Paralímpica de Esportes, mantida pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que oferece aulas semanais de futebol de 5, goalball, natação, judô e outras modalidades para jovens de 10 a 17 anos. Procurar projetos locais, centros esportivos e ONGs também é um bom caminho. Além disso, o apoio da família — comparecer aos treinos, celebrar as vitórias e aprender a lidar com desafios — é fundamental para que a criança se sinta segura.

Pergunta – A Copa do Mundo costuma gerar entusiasmo. Como aproveitar esse momento para ampliar a inclusão?

Resposta de Michele Lafraia – Em ano de Copa, a atenção da mídia e das escolas se volta para o futebol. É o momento perfeito para organizar torneios inclusivos, workshops e rodas de conversa sobre acessibilidade. A vibração das torcidas pode inspirar crianças com deficiência a experimentarem o esporte. A mensagem que passamos é: o futebol é de todos. Ao assistir a um jogo de futebol de 5 ou power soccer, as pessoas percebem que habilidade e paixão não dependem de enxergar ou de se locomover de determinada maneira.

Pergunta – Como referência e especialista em esportes adaptados, você costuma escrever artigos e dar palestras sobre o tema. O que te motiva a seguir nessa causa e como sua experiência internacional influencia esse trabalho?

Resposta de Michele Lafraia – Sempre digo que o esporte mudou a minha vida, e quero que outras pessoas tenham essa oportunidade. Quando vejo um jovem que nunca tinha chutado uma bola marcar o primeiro gol, sinto que estamos quebrando barreiras físicas e sociais. Escrever e falar sobre isso é uma maneira de ampliar o alcance da inclusão, compartilhar histórias de superação e mostrar que todos podem praticar atividade física. O clima de Copa do Mundo só reforça esse propósito: que a alegria que vemos nos gramados seja sentida por todas as crianças, independentemente de suas características. Minha experiência internacional, ao participar de conferências e intercâmbios, me mostrou que a inclusão é um movimento global e que nossas ideias podem viajar e se adaptar a diferentes realidades. Isso me motiva a continuar pesquisando e inspirando outros profissionais.

Uma paixão que transforma

O futebol inclusivo é mais do que uma adaptação das regras: ele traz o espírito da Copa do Mundo para realidades diversas, une pessoas e derruba preconceitos. Ao adotar práticas acessíveis, adaptar equipamentos e capacitar profissionais, escolas e clubes abrem as portas para milhares de crianças e jovens com deficiência. A atividade física regular melhora a saúde, desenvolve habilidades sociais, fortalece a autoestima e reduz o isolamento. A cada edição da Copa, o Brasil se lembra de sua paixão nacional; graças a projetos como o futebol de 5, o futebol de 7 e o power soccer, essa paixão se torna um instrumento de inclusão, inspiração e transformação.