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Da bancada ao artigo: engenharia civil brasileira ganha força na produção e na divulgação científica
- Créditos/Foto:Arquivo Pessoal
- 22/Setembro/2026
- Da Redação
Publicado em 16 de setembro de 2026
Por trás de cada edifício seguro, cada ponte durável e cada solução construtiva mais eficiente existe um corpo de conhecimento técnico que precisa ser produzido, testado e, sobretudo, compartilhado. Essa circulação — feita por meio de artigos científicos, periódicos especializados e congressos — é o que sustenta o avanço da engenharia. No Brasil, essa engrenagem vem ganhando força: a engenharia é hoje uma das áreas que mais crescem na produção acadêmica nacional.
Segundo relatório da editora científica Elsevier em parceria com a Agência Bori, elaborado a partir da base Scopus, o Brasil ocupa a 14ª posição no ranking mundial de publicações científicas e publicou 376.220 artigos entre 2019 e 2023. Depois de dois anos de queda, a produção voltou a crescer em 2024, superando 73 mil artigos — e foi justamente a área de engenharias e tecnologias a que registrou o maior aumento, de 7,1%. O país também formou uma comunidade científica muito maior: a proporção de autores que publicam saltou de 205 por milhão de habitantes em 2004 para 932 por milhão em 2024, quase cinco vezes mais.
Boa parte desse conhecimento chega ao público pelo acesso aberto, campo em que o Brasil é referência mundial. Criada em 1998 com apoio da FAPESP, a biblioteca SciELO (Scientific Electronic Library Online) foi pioneira global na publicação de periódicos científicos gratuitos na internet e reúne hoje mais de 300 revistas brasileiras revisadas por pares, editadas por universidades e sociedades científicas. Ao tornar a pesquisa nacional acessível e citável em qualquer parte do mundo, o modelo ajudou a profissionalizar os periódicos do país e a ampliar sua visibilidade internacional — um dos pilares da divulgação científica.
Na engenharia civil, a produção acadêmica se organiza em torno de instituições e eventos consolidados, como o Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON), a ALCONPAT Brasil (voltada à patologia das construções) e a Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (ANTAC), além de normas técnicas de referência da ABNT, como a NBR 15575 (desempenho de edificações) e a NBR 16747 (inspeção predial). O campo tem nomes de peso: Paulo Helene, professor titular da USP e uma das maiores autoridades internacionais em durabilidade e patologia do concreto, ligado ao IBRACON e à ALCONPAT; Ercio Thomaz, autor da obra de referência “Trincas em Edifícios”; e Tito Lívio Ferreira Gomide, nome histórico da inspeção predial e da perícia de engenharia, associado ao IBAPE. A produção desses pesquisadores ajudou a transformar áreas como patologia das construções, desempenho e diagnóstico em disciplinas técnicas consolidadas.
É nesse ecossistema — que conecta prática, pesquisa e divulgação — que se insere o engenheiro civil brasileiro Matheus A. Dourado, radicado na Flórida (EUA) e especializado em engenharia forense, diagnóstico de patologias construtivas e gestão de riscos na construção. Formado pela Universidade Salvador (UNIFACS), registrado no CREA-BA e também advogado inscrito na OAB, Dourado vem desenvolvendo produção técnica e acadêmica que dialoga tanto com o meio brasileiro quanto com periódicos e congressos internacionais.
Seu trabalho mais recente é o artigo “The Evolving Role of Forensic Engineers in Construction Risk Management”, aprovado para publicação pelo Journal of Construction Engineering and Management (JCEM), da American Society of Civil Engineers (ASCE) — um dos periódicos mais respeitados do mundo em engenharia e gestão da construção, classificado no primeiro quartil (Q1) do ranking internacional SCImago. O artigo, que propõe integrar investigação forense, controle de qualidade e prevenção de falhas à gestão de riscos de obras, foi aprovado após revisão por pares e encontra-se em produção editorial.
Dourado também teve resumo aprovado e artigo técnico submetido à avaliação no IFCEE 2027 (International Foundations Congress and Equipment Expo), um dos maiores congressos internacionais de fundações e geotecnia, organizado por entidades como o ASCE Geo-Institute e o Deep Foundations Institute (DFI); o trabalho trata de métodos de investigação de falhas estruturais e patologias precoces em fundações residenciais. No ASCE 2027, principal conferência anual da ASCE, marcada para março de 2027 na Filadélfia, teve aceito o resumo “Forensic Investigation of Building Envelope Failures in Residential Construction”, sobre falhas de envoltória em construção residencial. No Brasil, o engenheiro publicou o artigo “Obra a Preço de Custo: um estudo sobre essa solução para aquisição de moradia”, na Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento — periódico brasileiro de acesso aberto (ISSN 2448-0959) —, que analisa o modelo de incorporação por administração (“preço de custo”) e o compara a experiências de habitação nos Estados Unidos e na Europa, incluindo os Baugruppen alemães.
Mais do que os artigos isoladamente, é o conjunto da atuação de Dourado que revela sua inserção internacional: ele integra três comitês da ASTM International — desempenho de edificações (Comitê E06), engenharia forense (Comitê E58) e envelhecimento e durabilidade de materiais (Comitê G03) —, o Comitê de Investigações Forenses (COFI) da ASCE e dois conselhos de membros do International Code Council (ICC). Atua como revisor de dois periódicos científicos publicados pela ASCE: o próprio JCEM e o Journal of Performance of Constructed Facilities, publicação oficial da Forensic Engineering Division da ASCE e principal veículo revisado por pares dedicado à investigação de falhas construtivas, para o qual já concluiu revisão de artigo. Foi ainda convidado como palestrante do workshop Façade Serviceability: Failures and Lessons Learned, do Performance-Based Façade Design 2026, em Veneza (Itália), após avaliação competitiva de resumo, evento ao qual não poderá comparecer por conflito de agenda profissional.
“Pesquisa e prática precisam andar juntas. Investigar por que uma construção falha só tem valor pleno quando esse conhecimento é registrado, publicado e compartilhado — é assim que a próxima obra fica mais segura”, afirma Matheus A. Dourado. “O acesso aberto e a internacionalização mudaram o jogo para quem produz a partir do Brasil: hoje é possível publicar aqui e ser lido no mundo todo, ou submeter um trabalho a um grande periódico internacional de qualquer lugar. O que não pode faltar é rigor técnico e contribuição real para a área”, avalia.
Entre o crescimento da produção nacional, a força do acesso aberto e a presença de pesquisadores brasileiros em fóruns internacionais, a divulgação acadêmica se firma como a ponte entre a universidade e o canteiro de obras — e como um caminho para que o conhecimento produzido no Brasil circule, cada vez mais, para além das fronteiras.
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Por Adilson Piovesan
