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IA não é estratégia: tecnologia precisa estar ligada aos objetivos do negócio

*Por Carolina Abrantes // A inteligência artificial ocupa hoje um espaço central nas discussões corporativas. Segundo pesquisa da McKinsey, 78% das empresas já a utilizam em pelo menos uma função de negócio. Apesar da rápida adoção, ainda vejo muitas organizações cometendo o erro de tratar a IA como estratégia, quando ela deveria atuar como um elemento capaz de acelerar e fortalecer uma estratégia já estabelecida.

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Em alguns casos, a adoção da inteligência artificial passou a ser associada a uma revisão completa dos direcionamentos empresariais, como se a simples incorporação da tecnologia fosse suficiente para gerar diferenciação e manter a competitividade. Essa visão confunde ferramenta com estratégia. Na prática, o que sustenta uma posição estratégica continua sendo a combinação de recursos, capacidades e competências que tornam uma organização única diante dos concorrentes.

As teorias mais consolidadas de estratégia mostram que empresas sustentam resultados superiores quando conseguem combinar recursos de maneira difícil de ser replicada. Nesse contexto, a IA deve ser incorporada como mais um componente dessa combinação e não como um recurso isolado.

Esse ponto é especialmente importante porque a busca por produtividade deixou de ser um diferencial estratégico há muitos anos. Em um ambiente marcado por mudanças constantes e amplo acesso às novas tecnologias, ganhos operacionais se tornaram uma expectativa básica do mercado. O uso da IA para aumentar a eficiência é importante, mas representa apenas o estágio inicial da jornada.

O valor captado pela tecnologia passa a ser maior quando ela contribui para resultados ligados à cadeia de valor principal da empresa. Isso acontece quando a IA ajuda a ampliar market share, melhorar margens, transformar produtos e serviços ou até reconfigurar a dinâmica de uma indústria. É nesse momento que ela deixa de ser apenas uma ferramenta operacional e passa a exercer um papel estratégico.

Existem alguns sinais claros de que a adoção está acontecendo de forma superficial. A distribuição indiscriminada de plataformas de IA generativa, a falta de uma intenção estratégica claramente comunicada e a tendência de transformar a IA na resposta para qualquer desafio corporativo estão entre os exemplos mais frequentes.

Por isso, a discussão sobre IA nunca foi uma pauta exclusivamente tecnológica. Assim como aconteceu com outras transformações empresariais relevantes, estamos falando de um tema de liderança, gestão e estratégia. As organizações que compreenderam isso mais cedo conseguiram capturar benefícios de forma mais consistente.

Nesse processo, os boards têm um papel decisivo. Cabe à liderança comunicar com clareza porque a empresa está investindo em IA, como a tecnologia se conecta à estratégia e quais resultados pretende alcançar. Quando existe insegurança ou falta de direcionamento no topo da organização, essa percepção tende a se espalhar pela cultura corporativa e dificultar a geração de valor.

As empresas que estão obtendo resultados concretos costumam apresentar características semelhantes. Elas possuem uma intenção estratégica clara, entendem como a IA fortalece suas competências essenciais e equilibram experimentação com ações estruturantes de médio e longo prazo.

Já as empresas que investem sem transformar processos, estruturas de decisão e modelos de gestão enfrentam riscos relevantes. Além de desafios relacionados a custos, governança e segurança, existe um risco competitivo importante. Como o uso básico da IA está cada vez mais acessível, investir sem construir diferenciação significa assumir os custos da tecnologia sem capturar vantagem estratégica.

Estamos diante de uma nova janela de reconfiguração dos negócios. A IA terá impacto crescente sobre processos, produtos, decisões e modelos organizacionais. Mas a tecnologia, sozinha, não será responsável por criar valor sustentável. A diferença estará na capacidade de cada empresa de integrá-la àquilo que já a torna única. E, nesse cenário, aprender rápido, experimentar com segurança e transformar esse aprendizado em estratégia talvez seja a competência mais valiosa de todas.

*Carolina Abrantes é Sócia-Diretora, cofundadora da Bridge & Co., empresa de consultoria que desenvolve projetos digitais com foco em tecnologia e gestão

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