Corporativo
As mulheres que construíram renda do zero: como uma ex-professora federal formou 62 mil confeiteiras em todos os estados do Brasil
- Créditos/Foto:André Cruz Estúdio Fotográfico
- 12/Maio/2026
- Sabrina Galdino
Eloisa Cola saiu do Instituto Federal do Paraná em 2019 para fundar uma escola digital de confeitaria. Seis anos depois, suas alunas faturam entre R$ 5 mil e R$ 30 mil por mês — e especialistas do setor apontam o modelo como referência nacional de educação profissional fora da universidade
Em maio de 2024, Cláudia Dalle Laste perdeu tudo. A enchente que devastou o Rio Grande do Sul levou a casa, o carro, os móveis. Semanas antes, havia sido desligada do setor administrativo da empresa em que trabalhava na cidade de Guaíba. Aos quarenta e poucos anos, sem renda fixa e sem patrimônio, precisou recomeçar do zero, em uma cidade ainda em estado de calamidade. No final de 2024, usou o que restava do acerto rescisório para se matricular em um curso online de confeitaria. Em fevereiro de 2025, três meses depois, faturava mais de R$ 8 mil por mês vendendo bolos caseiros e brownies produzidos em casa. Hoje, a renda da confeitaria superou em definitivo a do antigo emprego, e o marido dela deixou as próprias atividades para trabalhar junto na operação.
A três mil quilômetros de distância, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, Daniela Nogueira percorreu um caminho diferente. Construiu, em paralelo a uma trajetória profissional consolidada no setor bancário, uma operação de confeitaria que se tornou referência local em Petrópolis e atende clientes recorrentes toda semana. Mantém CNPJ como microempreendedora individual e é reconhecida no comércio da cidade pelos bolos recheados que produz. Tornou-se um caso típico da nova classe de microempreendedoras brasileiras: profissionais qualificadas que, com técnica e gestão, construíram autonomia financeira independente do vínculo formal de origem.
As duas têm origem na mesma escola. Estudaram com Eloisa Cola Ribeiro de Oliveira, chef pâtissier de 19 anos de carreira, ex-professora do Instituto Federal do Paraná, instituição vinculada ao Ministério da Educação, e responsável por uma das maiores operações de educação digital em confeitaria do Brasil. Em seis anos, sua escola formou mais de 62 mil mulheres em todos os 26 estados brasileiros e no Distrito Federal, além de alunas em países de língua portuguesa e espanhola da América Latina.
Uma trajetória federal antes do digital
A escola que hoje atende dezenas de milhares de alunas tem origem em uma sala de aula presencial. Eloisa é técnica em Gastronomia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, bacharel em Gastronomia pela Universidade do Vale do Itajaí, onde se formou com média 8,80 e prêmio de melhor Trabalho de Conclusão de Curso, e portadora do diploma de Chef Internacional e Pâtissier pela mesma instituição. Tem MBA em Gestão da Aprendizagem e cursa mestrado em Tecnologia dos Alimentos.
Foi docente em três universidades acreditadas pelo Ministério da Educação: Universidade do Oeste do Paraná (Univel), Centro Universitário União das Américas (Uniamerica) e Instituto Federal do Paraná. No Instituto Federal do Paraná, atuou como professora do Curso Técnico em Cozinha, orientadora de estágio e membro de bancas avaliadoras, função vinculada ao sistema federal de educação profissional do Ministério da Educação.
Em 2019, deixou a docência presencial e fundou a escola digital que hoje administra. A operação acumula R$ 6,2 milhões em faturamento bruto desde a abertura, mais de 30 cursos no catálogo, 264 mil seguidoras no Instagram e mais de 60 mil inscritos no YouTube. Em 2023, foi indicada pela Revista Mensch entre as cinco principais chefs de confeitaria do Brasil.
Eloisa foi também uma das primeiras profissionais brasileiras a estruturar uma linha completa de cursos de confeitaria sem glúten, sem leite e sem açúcar, com metodologia baseada em ciência dos alimentos. O segmento, hoje, movimenta milhões e atende um mercado consumidor crescente formado por pessoas com restrição alimentar, intolerância à lactose, doença celíaca e diabetes.
A validação do setor
O trabalho de Eloisa é reconhecido por pares do setor de gastronomia profissional. Gislaine Silveira, doutora e mestre em Ciência dos Alimentos pela Universidade Estadual de Londrina, com especialização em Desenvolvimento de Produtos Alimentícios pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná e formação dupla em Tecnologia de Alimentos pelo antigo Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, instituição que originou a própria UTFPR, avalia o método com a propriedade de quem trabalha há mais de duas décadas com ciência aplicada à alimentação.
O alcance da operação e a base acadêmica do método consolidaram Eloisa Cola Ribeiro de Oliveira como referência nacional em educação gastronômica fora do circuito universitário tradicional. “O trabalho da Eloisa tem mérito raro no mercado brasileiro de educação digital em gastronomia: combina formação acadêmica sólida com capacidade de tradução pedagógica em escala. É das poucas profissionais do país que conseguem ensinar técnica de nível profissional para quem está na cozinha de casa, sem perder rigor”, afirma Silveira.
A combinação de credencial acadêmica federal com escala digital nacional é apontada por especialistas como atípica no mercado brasileiro de educação online. A maioria das operações do segmento é conduzida por influenciadoras culinárias sem formação técnica formal, o que limita o resultado das alunas. Produtos com textura inconsistente, validade incerta e precificação errada são as queixas mais comuns relatadas em grupos de confeiteiras nas redes sociais.
Por dentro do método
Eloisa atribui o desempenho das alunas a três pilares: técnica profissional baseada em ciência dos alimentos, metodologia pedagógica adaptada ao formato digital curto, e ênfase em gestão financeira da microempresa caseira.
“A maioria das mulheres que chegam até mim não quer ficar rica. Quer pagar a escola do filho, ajudar em casa, ter dignidade financeira”, diz Eloisa. “Quando elas descobrem que podem fazer isso na cozinha de casa, com técnica profissional, a vida muda.”
O ponto mais comum de falha do setor, segundo ela, é a precificação. “A pessoa soma o custo dos ingredientes, coloca 100% de margem e acha que está lucrando. Não está. Esqueceu da embalagem, do gás, da energia, da hora dela mesma. Aquele bolo de R$ 80 muitas vezes deixa R$ 12 de lucro real. Quando o trigo sobe, vira prejuízo direto.”
A engenharia de receita, que consiste em substituições técnicas que reduzem custo sem comprometer qualidade, é outro pilar do método. “Trocar 30% da farinha de trigo por amido de milho em bolos simples e biscoitos reduz o custo em até 42% sem perder qualidade. Mas tem que saber onde aplicar. Em pão e massa folhada, não funciona. Precisa de glúten.”
Impacto em escala nacional
O Sebrae estima que mais de dez milhões de mulheres brasileiras geram renda informalmente com alimentação, parte significativa em confeitaria caseira: bolo, brigadeiro gourmet, sobremesa de pote, doce sob encomenda. É um dos maiores contingentes de microempreendedorismo feminino do país e um dos menos cobertos por política pública de capacitação.
Nesse cenário, as 62 mil alunas formadas por Eloisa em seis anos representam, em escala, um programa de educação profissional comparável ao que algumas iniciativas estaduais entregam em períodos similares, sustentado, porém, por estrutura privada, sem subsídio público, e com alcance nacional simultâneo. As alunas estão distribuídas pelos 26 estados, pelo Distrito Federal, e em países da América Latina onde a operação digital chega.
A renda gerada por essas mulheres, segundo dados informados pela escola, posiciona parte significativa do contingente em faixa de faturamento mensal entre R$ 5 mil e R$ 30 mil, patamar que, em muitos casos, supera o que recebiam em empregos formais anteriores.
“O Brasil tem mais de dez milhões de mulheres trabalhando informalmente com alimentação”, diz Eloisa. “A maioria aprendeu sozinha. A maioria não sabe se está lucrando. Meu trabalho é dar para essas mulheres o que a universidade dá para os privilegiados que conseguem entrar nela, só que pela internet, em formato curto, com preço que cabe.”
Sobre a decisão de ter deixado a sala de aula federal em 2019, dá uma resposta direta: “Quando saí, formava 400 alunos por ano com muito esforço. Hoje formo 62 mil em seis anos. Não troco.”
