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Diagnóstico tardio de autismo ajuda a explicar anos de sofrimento emocional

Receber um diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) na vida adulta costuma ser mais do que uma confirmação clínica. Pode ser a oportunidade de compreender experiências acumuladas ao longo de anos, incluindo dificuldades sociais, desafios sensoriais e sentimentos persistentes de não pertencimento. A descoberta ajuda a reorganizar a própria história e oferece uma explicação para situações que, até então, pareciam desconexas.

De acordo com o neurologista Matheus Trilico, referência no atendimento de adultos com TEA e TDAH, ainda existe uma grande parcela de pessoas que passou a infância e a adolescência sem identificação adequada do transtorno, formando o que muitos especialistas chamam de “geração perdida” do autismo.

“É comum encontrarmos pacientes extremamente cansados emocionalmente. Durante décadas, eles tentaram se adaptar a padrões sociais que não correspondiam à sua forma natural de funcionamento. Nesse processo, desenvolveram o chamado masking, ou camuflagem social, um mecanismo utilizado para esconder características autistas e reproduzir comportamentos considerados neurotípicos”, afirma o médico.

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Quando a adaptação constante gera sofrimento

Embora a camuflagem social seja frequentemente usada para facilitar a convivência, ela pode gerar consequências para a saúde mental. Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Clinical Psychology Review concluiu que o masking está associado a maior risco de exaustão (burnout), baixa autoestima e dificuldades relacionadas à identidade, além de sintomas de ansiedade e depressão

Segundo Trilico, muitos pacientes associam os sintomas emocionais a anos de experiências marcadas por isolamento, exclusão social e situações de bullying sem que houvesse uma explicação clara para essas vivências. “Muitos quadros de ansiedade e sofrimento psicológico estão relacionados ao impacto de viver por décadas com um autismo não identificado. O diagnóstico tardio permite compreender essa trajetória e oferece um novo direcionamento para o cuidado.”

O papel do diagnóstico na construção do bem-estar

Apesar dos desafios que ainda existem para o acesso ao diagnóstico na vida adulta, a identificação do TEA pode trazer benefícios. Entre eles, estão o fortalecimento da autoaceitação, o aumento do autoconhecimento e a possibilidade de estabelecer conexões com outras pessoas que compartilham experiências semelhantes. Além disso, o laudo pode favorecer adaptações em contextos familiares, acadêmicos e profissionais, contribuindo para uma rotina mais compatível com as necessidades individuais.

Para o neurologista, a abordagem terapêutica deve priorizar qualidade de vida e suporte adequado, em vez de tentar modificar características próprias do indivíduo. “Atualmente, sabemos que a Terapia Cognitivo-Comportamental adaptada para pessoas autistas é considerada tratamento de primeira linha para o manejo de condições associadas, como ansiedade e depressão. Paralelamente, é fundamental promover ambientes sociais e corporativos mais preparados para acolher a neurodiversidade.”

Clareza para uma história que antes não fazia sentido

O diagnóstico tardio de autismo não deve ser encarado como uma limitação. Pelo contrário. Ele pode representar um ponto de virada, oferecendo compreensão sobre experiências passadas e ferramentas para uma vida mais alinhada às necessidades da pessoa.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Autism in Adulthood aponta que o diagnóstico na vida adulta pode favorecer o autoconhecimento, a autoaceitação e o sentimento de pertencimento. Já outra revisão, publicada no mesmo ano no Journal of Autism and Developmental Disorders, destaca que o acesso a psicoeducação, grupos de apoio e suporte entre pares é considerado um dos principais fatores para melhorar a qualidade de vida após a descoberta.

“O diagnóstico não define quem a pessoa é. Ele ajuda a iluminar aspectos da própria trajetória que antes permaneciam sem explicação. Para muitos adultos, é o início de uma vida mais autêntica, com menos necessidade de camuflagem e mais respeito às próprias características”, conclui Trilico.

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