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Casamento Loquinha: por que cena da novela importa no 17 de maio

  • Créditos/Foto:Divulgação/Rede Globo
  • 15/Maio/2026
  • Autor Convidado

*Por Bruna Irineu e Larissa Pelúcio // 18,9 milhões de brasileiros assistiram a uma cerimônia coletiva LGBT+ na novela Três Graças, da Rede Globo. Viviane, uma mulher transexual, casou-se com Leonardo, um homem cis. Lorena e Juquinha, um casal lésbico, selaram a união no mesmo altar. Foi a primeira vez na história da teledramaturgia nacional que um casamento trans ocupou o horário nobre. O vilão da trama, um homem que odeia pessoas LGBT+, tentou impedir o momento e fracassou.

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A cena chegou às vésperas de 17 de maio, data que marca a retirada da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1990 e que, hoje, simboliza o Dia Internacional de Combate à LGBTfobia. Trinta e seis anos depois, a novela e o cotidiano das plataformas digitais colocam em evidência o paradoxo da violência algorítmica: ao mesmo tempo em que pessoas LGBT+ são um nicho valioso para consumo e engajamento, também são vistas como “problemáticas” pelas próprias hierarquias de conteúdo. Nesse cenário, preconceitos antigos são reproduzidos de forma menos explícita, escondidos sob decisões aparentemente “neutras” dos algoritmos.

Os mesmos canais que vendem audiências LGBT+ a anunciantes, bloqueiam hashtags de diversidade e desmonetizam criadores que produzem exatamente o conteúdo que essas plataformas usam para atrair marcas. A visibilidade, historicamente reivindicada como estratégia política central pela comunidade, começa a operar de forma ambivalente – pode produzir reconhecimento e conexão, mas também intensifica processos de controle, assédio e punição, sobretudo quando mediada por sistemas algorítmicos normativos. A autora Shoshana Zuboff descreve essa arquitetura como capitalismo de vigilância, um regime que comercializa comportamentos futuros extraídos da vida cotidiana.

O TikTok proibiu, por exemplo, em diretrizes internas tornadas públicas, expressões de afeto entre pessoas LGBT+ e registros de ativismo político, sob o argumento de respeito a “sensibilidades culturais” locais. O modelo LLaMA 4, da Meta, recomendou conteúdos associados à “terapia de conversão” a pessoas que pesquisavam sobre homossexualidade, uma consequência de dados saturados de patologização, conforme denúncia da organização GLAAD. Em janeiro de 2025, na posse de Donald Trump, Zuckerberg, Musk, Bezos, Altman e o CEO do TikTok ocupavam as primeiras fileiras. Com fortunas que somadas superam R$ 5 trilhões, os executivos reunidos chegaram como arquitetos de um regime sociotécnico excludente que articula autoritarismo político e conservadorismo moral. É o que temos denominado de “fascismo digital”.

A data de 17 de maio convoca, portanto, uma luta que vai além das ruas e das instituições. Quem coprojeta as infraestruturas digitais, quem define o que é conteúdo sensível, quem responde juridicamente pelos efeitos de suas próprias arquiteturas são questões políticas urgentes. Nas brechas que todo grande sistema produz, iniciativas de hackerativismo cuir, transfeminista e antirracista já constroem respostas.

Viviane e Leonardo e Lorena e Juquinha disseram “sim” onde o ódio tentou dominar e não conseguiu. Mas o avanço da representação LGBT+ na teledramaturgia brasileira não resulta de uma conversão ética das emissoras, mas da pressão de movimentos sociais combinada ao cálculo de audiência. Porque sistemas de inteligência artificial treinados com dados carregados de discriminação ainda reproduzem, agora de forma automatizada, os tantos enquadramentos que o movimento levou décadas para desmontar.

Visibilidade e supressão não são polos opostos. São funções complementares da comoditização das identidades. O 17 de maio existe justamente para combatermos infraestruturas e algoritmos que o mercado construiu para si, não para nós.

*Bruna Irineu e Larissa Pelúcio são bolsistas do CNPq, professoras, pesquisadoras e coautoras do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: Ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital

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