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“A pandemia iniciou novos tipos de fake news”, diz fundador do E-Farsas

Créditos: Foto: Pixabay
19 maio, 2020
Maria Beatriz Vaccari

Nas últimas semanas, boatos relacionados ao novo coronavírus ganharam destaque nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp. Além de ajudarem a propagar a desinformação, alguns materiais podem ser perigosos (como os que dão dicas falsas sobre como combater a covid-19 com tratamentos alternativos).

“A pandemia iniciou novos tipos de fake news na internet. Muita gente está se aproveitando disso. Inclusive, para fazer politicagem”, explica Gilmar Lopes, especialista em checagem de fatos desde 2002 e fundador do site E-Farsas.

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O cenário dos boatos sobre o novo coronavírus

Atualmente, o cenário das notícias falsas relacionadas à pandemia da covid-19 pode ser dividido em fases. “A primeira foi quando o vírus estava só na China. As pessoas espalharam materiais dizendo que todos do país estavam morrendo e que não sobraria ninguém. Começaram até a divulgar fotos de pessoas caídas no chão e vídeos de gente desmaiando na rua. Entretanto, essas imagens não tinham nada a ver com o coronavírus. Elas eram antigas e foram tiradas de contexto”, destaca Gilmar.

Na segunda fase, começaram a surgir boatos de que a China criou o novo coronavírus com a intenção de espalhar a doença pelo mundo para controlar ou acabar com a economia. Apesar da falta de provas e das explicações vagas, a teoria ainda é defendida por muitas pessoas, inclusive, por figuras importantes do governo dos Estados Unidos.

A terceira etapa do cenário tem a ver com a chegada do vírus a outros países e ao Brasil. “As histórias que circulavam na internet diziam que não era tudo isso, que era fraco e parecia com uma gripezinha. Elas defendiam que ninguém precisava se preocupar”, destaca Gilmar. “Depois, começaram a dizer que os governadores estavam criando notícias sobre mortes por coronavírus e enterrando caixões vazios com o objetivo de aumentar os números de óbitos e prejudicar o governo federal”, completa.

O E-Farsas checou a informação e descobriu que os materiais usados para propagar a notícia dos caixões eram de 2017. Eles não tinham relação alguma com a pandemia. “Recentemente, uma mulher que ficou bastante conhecida nos grupos de WhatsApp por compartilhar que os cemitérios de Belo Horizonte (MG) estavam sendo usados para enterrar caixões vazios teve que pedir desculpas publicamente por ter mentido. A polícia foi atrás dela e ela se meteu em uma encrenca bem grande por espalhar essa desinformação”, destaca.

A última fase relacionada à disseminação de boatos sobre o vírus tem a ver com a cura do coronavírus. As mensagens espalham uma série de métodos suspeitos e ineficazes, como tomar chá de limão e fazer gargarejo com alho.

Brasil não está sozinho

Apesar de desmentir notícias que circulam no Brasil, Gilmar está sempre de olho nas agências de checagem de fatos de outros países. “Não é só brasileiro que gosta de espalhar fake news. Pessoas do mundo inteiro fazem isso. Muitas vezes, sem saber”, afirma.

Uma notícia que viralizou em inglês ou francês, por exemplo, pode chegar ao Brasil, em português, após algum tempo. Nesses casos, alguns detalhes são sempre adaptados e localizados à realidade do País.

“Um bom exemplo é o caso da cloroquina. O assunto surgiu com um médico cientista francês, que fez pesquisas sobre o tema e chegou a resultados favoráveis. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gostou da publicação e, mesmo sem mais dados para comprovar a eficácia do medicamento, começou a espalhar isso como se fosse a cura definitiva para o novo coronavírus”, comenta o fundador do E-Farsas.

Quando o tema chegou ao Brasil, houve ainda uma confusão com o nome, já que muitas pessoas começaram a confundir cloroquina com hidroxicloroquina. “A história ganhou uma proporção tão grande que rendeu até uma notícia falsa dizendo que a água tônica, por ter quinino, um produto derivado da cloroquina, serve de remédio para combater o vírus. Depois, uma moça que ajudou a espalhar o boato no WhatsApp gravou uma mensagem dizendo que era brincadeira. O problema é que o estrago já tinha sido feito, e o vídeo com a informação falsa teve milhares de compartilhamentos”, ressalta Gilmar.

Como reconhecer uma notícia falsa?

Normalmente, as fake news apresentam elementos característicos. Um dos fatores é que, geralmente, esse tipo de conteúdo não é datado. Portanto, a pessoa que recebe a mensagem tende a compartilhar achando que é algo recente.

“Outra caraterística é o tom conspiratório. Normalmente, esses textos falam que pouca gente tem conhecimento sobre o assunto e incentivam as pessoas a repassarem rápido, antes que o conteúdo seja retirado do ar pelo governo ou qualquer outra instituição que não quer que a população tenha acesso às informações”, destaca o especialista em checagem de fatos. “As fake news também tendem a usar letras em caixa alta e muitos emojis para chamar atenção”, completa.

Outro fator importante é que as notícias falsas não costumam ter fontes. “Para entender melhor e fazer um contraponto, você pode abrir uma reportagem em um jornal sério qualquer. Na página, será possível observar fatores importantes, como a data em que o material foi publicado, o nome do repórter que escreveu e todas as fontes que ele usou para levantar as informações que estão no texto”, diz Gilmar.

Combate à desinformação 

Algumas plataformas da internet já adotaram medidas especiais para tentar diminuir a propagação de notícias falsas sobre a pandemia. O Twitter, por exemplo, está excluindo posts com informações mentirosas. Já o WhatsApp limitou a quantidade de contatos que podem ser selecionados na hora de encaminhar uma mensagem.

Para Gilmar, o combate às notícias falsas na internet ainda é um assunto complicado. Atualmente, esse tipo de informação é analisado por algoritmos, que não conseguem detectar o contexto da publicação, um sarcasmo ou uma ironia.

Ele cita um exemplo de falha que aconteceu com o E-Farsas em 2019, quando uma ponte desmoronou no Rio de Janeiro e os governantes levaram meses para consertá-la. Por causa disso, começou a circular nas redes sociais uma história dizendo que um viaduto que caiu no Japão foi reconstruído em apenas três dias. Só que a história não era real. O Japão realmente reconstruiu a ponte com muito mais agilidade que o Rio de Janeiro, mas não em tão pouco tempo.

“Fizemos um post desmentindo isso no E-Farsas e colocamos no Facebook. A plataforma se confundiu, achando que a gente estava espalhando a notícia falsa, e bloqueou o conteúdo”, afirma o profissional. “O mais engraçado de tudo isso é que o verificador que analisou a postagem usou a minha própria publicação do E-Farsas como fonte para provar que a história da ponte japonesa era falsa”, completa.

Gilmar acredita que a curadoria humana seria uma boa pedida para combater a desinformação com mais eficiência. Entretanto, a possibilidade de bloquear um conteúdo e acabar comprometendo o que uma pessoa tem a dizer também é preocupante. “Cercar demais pode acabar esbarrando na liberdade de expressão. As pessoas podem confundir o direito de falar, mesmo que estejam compartilhando algo que não é necessariamente verdade, com o bloqueio total de não poder dizer nada que não seja comprovado como verdadeiro. É uma balança muito difícil”, comenta.

Nem só de boatos vive a internet

Apesar de ser uma ferramenta muito usada para propagar desinformação, a internet também é uma arma poderosa para ampliar o conhecimento das pessoas. “A web tem muitas iniciativas bacanas. O biólogo Atila Iamarino, por exemplo, está fazendo um trabalho muito legal com explicações sobre o novo coronavírus e dicas de prevenção. Além disso, há cursos online que podem ser feitos sem sair de casa e lives que oferecem entretenimento. Elas são boas opções para ajudar na saúde mental das pessoas que não estão acostumadas e ficar tanto tempo sem ir para a rua”, destaca o profissional.

Ele acredita que, quando a pandemia passar, a internet vai continuar sendo uma ferramenta de trabalho essencial. “Muita gente entendeu que dá para trabalhar de casa. Uma pessoa que pegava duas horas de condução todos os dias, por exemplo, percebeu que pode ficar em casa e produzir exatamente a mesma coisa”, explica Gilmar. “Os serviços de streaming também devem crescer muito, assim como o ensino a distância. Acredito que ele vai continuar sendo usado mesmo após a necessidade de distanciamento social”, completa.

Quanto aos boatos, o criador do E-Farsas defende que ainda haverá uma longa batalha no mundo online. “Entretanto, o assunto está tão em alta que a tendência é de que as pessoas fiquem mais espertas e não caiam mais tão facilmente nessas desinformações”, finaliza.

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